A governabilidade de lula no novo mandato exigirá constante negociação e a construção de amplas alianças, visto que a oposição ganhou força no Congresso Nacional. Embora o presidente tenha obtido uma votação expressiva nas urnas, o cenário político atual demanda articulação permanente para aprovar projetos e avançar com a agenda do Executivo.

Os desafios para a administração federal foram debatidos durante o Seminário Brasil 2027 – Desafios do Novo Ciclo, realizado pela Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. Especialistas se reuniram no evento para analisar o panorama que surgiu após as eleições.

Um dos grandes obstáculos para formar uma maioria parlamentar é o crescimento de parlamentares ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Somando siglas como Progressistas (PP) e Republicanos, a direita assegurou mais da metade das cadeiras no parlamento, conforme pontuou o professor Lúcio Rennó, da Universidade de Brasília (UnB).

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“Temos uma ideia de um presidente como líder de governo que ganha um mandato direto do país para implementar políticas públicas e funcionou assim por décadas, mas, nos últimos 15 anos, mais ou menos, uma série de reformas desequilibraram a balança em prol do legislativo e em detrimento do executivo”, analisa o professor.

Além da complexidade para montar uma base sólida, a gestão federal pode enfrentar uma oposição inclinada a bloquear pautas prioritárias. Essa é a leitura do cientista político Cláudio Couto, docente da Fundação Getulio Vargas (FGV).

“A gente está falando de uma direita anti-Estado Democrático”, destaca Couto. Segundo ele, trata-se de um grupo que desconsidera a legitimidade do opositor e tende a atuar em uma dinâmica de sabotagem institucional.

Centrão e o controle da pauta legislativa

Nesse contexto desafiador, os partidos de centro, frequentemente chamados de centrão, assumem um papel estratégico para viabilizar acordos, principalmente na Câmara dos Deputados. A interlocução com esses blocos será determinante para destravar propostas de interesse do Palácio do Planalto.

A disputa pelas presidências da Câmara e do Senado, marcada para fevereiro, servirá como o primeiro grande termômetro dessa articulação. O desfecho definirá o poder de barganha do governo com os parlamentares.

“Quem manda no país hoje são dois atores chave: o presidente da Câmara e o do Senado, eles definem a agenda legislativa, controlam a possibilidade de impeachment e inúmeras nomeações, como para [ministros do] o Supremo Tribunal Federal, além da alocação de verbas de emendas parlamentares”, lembrou o professor da UnB.

Apesar disso, apenas conversar com o centrão não resolverá todos os entraves. Os analistas reforçam a importância de afinar a coordenação política dentro do próprio governo, garantindo que os indicados partidários ajudem a construir consensos no parlamento.

Mobilização social e novos caminhos

Conforme aponta a professora Talita Tanscheit, da PUC-Rio, o engajamento da sociedade civil pode funcionar como um suporte adicional para blindar pautas democráticas e dar sustentação à base governista.

Para a pesquisadora, o Partido dos Trabalhadores (PT) precisa manter vínculos constantes com movimentos progressistas. A ampliação de canais de participação popular, como conselhos e conferências, também surge como alternativa viável.

“O segundo turno trouxe de volta à cena um ator que não estava presente desde a pandemia de covid-19: a sociedade civil e os movimentos sociais”, observa a professora.

Debates sensíveis no horizonte

A resistência de setores conservadores também poderá abrir espaço para discutir temas espinhosos, como eventuais mudanças na maioridade penal e reformas estruturais no Judiciário, em meio às críticas direcionadas ao Supremo Tribunal Federal (STF).

“A vitória expressiva do PL, principalmente no Senado, retrata a insatisfação popular com o STF”, concluiu Rennó, indicando que o tema continuará gerando debates intensos em Brasília.

FONTE/CRÉDITOS: Portal T7 com EBC